
Pacheco Pereira inaugura exposição inédita sobre censura no Estado Novo
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- Data 27/03/2026
Fundador do Arquivo Ephemera sublinhou a “clara intenção pedagógica” deste espólio, patente na ESE/IPS até 30 de abril
O Politécnico de Setúbal (IPS) abriu ontem portas à exposição “Proibido por inconveniente – Materiais da censura do Arquivo Ephemera”, um conjunto inédito de materiais dedicado à compreensão histórica e crítica da censura em Portugal durante o Estado Novo.
A inauguração, no átrio da Escola Superior de Educação (ESE/IPS), contou com a presença do historiador José Pacheco Pereira, fundador do Arquivo Ephemera, que sublinhou a importância histórica deste espólio e a sua “clara intenção pedagógica”, não só junto da comunidade estudantil, mas também da população em geral.
Como explicou o responsável, este núcleo expositivo integra um espólio mais vasto que é “provavelmente semelhante, no valor e na dimensão, àquele que existe na Torre do Tombo, sendo em muitos aspetos até mais relevante, porque encontramos aqui os despachos dos livros censurados mais conhecidos”. São disso exemplos “Aparição”, de Vergílio Ferreira, ou “Novas Cartas Portuguesas”, de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, este último proibido por “ofensa aos costumes e à moral do país” e bem paradigmático da “repressão particular” que se exercia sobre as mulheres que ousavam escapar “à casa e ao lar”.
Resultante de uma parceria entre o Arquivo Ephemera e as Bibliotecas do IPS, a exposição evidencia como a censura moldou a informação disponibilizada às populações nos tempos da ditadura. O conjunto apresenta sobretudo exemplos da censura oficial exercida sobre jornais e livros, mas dá também a conhecer o controlo exercido noutros meios, como cinema, rádio e música, permitindo um retrato abrangente dos mecanismos que limitaram, durante décadas, a liberdade de expressão.
“Esta exposição deve ser vista pelo maior número de pessoas. É uma exposição para ler. Através destes documentos, é possível aprender muito sobre aquilo que nós, durante 48 anos, não podíamos saber. E perceber também porque é que a censura é a instituição do Estado Novo que mais perdurou até hoje, moldando mais do que uma geração de portugueses”, considerou o investigador.
Como primeiro grito de alívio e explosão de alegria, pode ver-se, entre os materiais expostos, o primeiro número de um jornal publicado em liberdade, o “República”, que sai para as bancas na tarde de 25 de abril de 1974 com a referência, em destaque na primeira página, “Este jornal não foi visado por qualquer comissão de censura”.
Além da dimensão repressiva, para Pacheco Pereira fica também evidente neste núcleo a vertente propagandística da censura, ao promover um país idealizado, sem sombra de corrupção, convenientemente despolitizado e sem participação cívica, e onde reinava o “respeitinho” pelos costumes e moral vigentes. “O que temos aqui mostra a outra realidade do País, aquilo que os portugueses não tiveram, durante décadas, autorização para ver e saber, incluindo muitos casos de corrupção que percorriam o país de norte a sul, contrariando algumas narrativas atuais sobre um país de respeito pelas leis durante a ditadura”.
Na sessão de inauguração, Rodrigo Lourenço, vice-presidente para o Ensino e Aprendizagem, agradeceu a oportunidade de acolher esta exposição, não só porque permite “reforçar a componente cultural, cada vez mais essencial na formação dos nossos estudantes”, mas também porque vem “fomentar a discussão sobre as democracias, numa reflexão sobre o caminho que hoje levamos”.
Enquanto anfitrião, o diretor da ESE/IPS, João Pires, salientou por seu turno o simbolismo deste edifício, projetado pelo arquiteto Siza Vieira, enquanto espaço de acolhimento: “Para uma exposição que aborda o antes do 25 de Abril, nada melhor do que um espaço que nasce e cresce a partir do conceito de democracia e que privilegia as liberdades desde a sua génese”.
A mostra, aberta ao público em geral, ficará patente até 30 de abril, podendo ser visitada nos dias úteis, entre as 08h00 e as 22h30, e aos sábados, entre as 08h00 e as 18h00.
