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Entrevista: “A voz é também uma ferramenta de trabalho que exige atenção contínua”

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Dia Mundial da Voz: ESS/IPS promove programa de saúde vocal e da comunicação no meio académico

A pretexto do Dia Mundial da Voz, celebrado a 16 de abril, a docente Sónia Lima, coordenadora do Departamento de Ciências da Comunicação e Linguagem da Escola Superior de Saúde (ESS/IPS), reflete sobre a importância da voz enquanto instrumento fundamental de identidade e expressão. Nesta entrevista, a docente e investigadora destaca os principais desafios enfrentados pelos utilizadores profissionais da voz, e o papel determinante do terapeuta da fala na prevenção e reabilitação de perturbações vocais.

A voz é um instrumento de identidade e expressão humana. Até que ponto lhe damos a devida atenção?
A voz é, de facto, um elemento central da identidade humana. Acompanha‑nos diariamente e permite‑nos comunicar ideias, emoções, intenções e conhecimento, inserindo‑nos plenamente na vida pessoal, social, profissional e artística. No entanto, apesar da sua importância, tendemos a reconhecê‑la verdadeiramente apenas quando surge algum problema, como rouquidão persistente, fadiga vocal ou perda parcial da voz.

No contexto profissional, especialmente nas profissões da educação e, em particular, no Ensino Superior, a voz é frequentemente utilizada de forma intensa, prolongada e exigente, nem sempre acompanhada de preparação prévia ou de estratégias adequadas de recuperação.

Quais os grandes erros que todos acabamos por cometer?
Entre os erros mais comuns encontram‑se a ausência de aquecimento e arrefecimento vocal, o uso da voz em ambientes ruidosos, o recurso sistemático ao esforço excessivo, a utilização da voz em contextos de saúde fragilizada e a falta de técnica vocal apropriada, bem como a desvalorização dos sinais de alerta vocal.

A estes fatores associam‑se ainda condições de vida e de trabalho que influenciam diretamente a saúde vocal, como o stress, a sobrecarga profissional, a hidratação insuficiente, o consumo de substâncias prejudiciais, nomeadamente tabaco e álcool, ou a ingestão excessiva de estimulantes, como o café. Acrescem hábitos alimentares pouco equilibrados, a prática insuficiente de exercício físico e rotinas desajustadas de sono e descanso. Trata‑se de fatores que comprometem a saúde de forma global e que se refletem de modo particularmente evidente na função vocal.

Cuidar da voz implica consciência, prevenção e a adoção de hábitos saudáveis, entendendo‑a não apenas como um recurso natural, mas como uma verdadeira ferramenta de trabalho que exige atenção contínua. À semelhança de qualquer outra ferramenta profissional, a voz precisa de ser cuidada, treinada e preservada, sobretudo quando assume um papel central na atividade laboral.

No contexto educativo, a voz assume ainda uma dimensão que ultrapassa a sua função técnica: é um elemento de envolvimento pedagógico, de motivação e de construção de relação. Todos recordamos aquele professor ou profissional cuja voz, para além do conteúdo transmitido, despertava o interesse e captava a atenção, mantendo‑nos atentos e envolvidos, como se, muito antes das redes sociais, já fosse um verdadeiro influencer do conhecimento.

Cuidar da voz implica consciência, prevenção e a adoção de hábitos saudáveis, entendendo-a não apenas como um recurso natural, mas como uma verdadeira ferramenta de trabalho que exige atenção contínua.
Sónia Lima, docente da ESS/IPS

“Caring for our voices” é o mote de 2026 do Dia Mundial da Voz, celebrado a 16 de abril. Quais as regras básicas a ter em conta?
O mote “Caring for our voices” traduz de forma clara a essência do Dia Mundial da Voz: a importância do cuidado contínuo e consciente da voz ao longo da vida. Esta efeméride foi criada com o objetivo de sensibilizar a população para os fatores de risco associados às perturbações vocais, incluindo patologias graves, como o cancro da laringe, promovendo simultaneamente a prevenção e o diagnóstico precoce.

Anualmente, importa reforçar algumas regras básicas, como a atenção aos sinais e sintomas indicativos de alteração vocal, a adoção de um estilo de vida saudável do ponto de vista físico e emocional, o respeito pelos próprios limites vocais e a implementação de estratégias que contribuam para a redução do esforço vocal no quotidiano.

É igualmente fundamental recordar que a prevenção começa com gestos simples, como o aquecimento da voz antes do uso prolongado, a realização de pausas vocais, a evicção do uso da voz em ambientes ruidosos e a promoção do arrefecimento vocal após períodos de utilização intensiva, quer em contexto profissional, quer na vida diária.

O que importa relembrar anualmente nesta efeméride?
O Dia Mundial da Voz assume um papel privilegiado na promoção da literacia em saúde vocal, na sensibilização para comportamentos de risco e na construção de uma relação mais equilibrada com a própria voz, sobretudo entre os profissionais que dela dependem diariamente.

Para além da sua dimensão preventiva, esta data constitui também um momento de celebração da voz enquanto veículo essencial de comunicação do conhecimento, da arte, da expressão individual e da identidade. É uma oportunidade para fazermos as pazes com a nossa voz, escutá‑la com mais atenção, cuidá‑la com carinho e utilizá‑la de forma consciente para nos afirmarmos, comunicarmos e existirmos plenamente.

Qual o papel de um terapeuta da fala, quer na prevenção, quer no tratamento de problemas de saúde vocal?
A intervenção em problemas de saúde vocal é, frequentemente, realizada por uma equipa multidisciplinar, na qual o terapeuta da fala assume um papel central, tanto ao nível da prevenção como da avaliação e da intervenção terapêutica. A sua atuação decorre ao longo de todo o ciclo de vida, desde a infância ao envelhecimento, sempre baseada na evidência científica.

Na vertente preventiva, o terapeuta da fala promove a literacia em saúde vocal, a educação para o uso eficiente da voz e a adoção de boas práticas vocais, intervindo junto de profissionais que utilizam a voz como principal instrumento de trabalho. Esta atuação visa não apenas prevenir o surgimento de perturbações vocais, mas também otimizar a qualidade da voz e da comunicação.

Ao nível da intervenção terapêutica, o trabalho é individualizado e centrado na reabilitação vocal. Inclui a avaliação funcional da voz, a implementação de programas de reeducação vocal e a utilização de técnicas específicas que promovem a coordenação entre respiração e fonação, a melhoria da coaptação das pregas vocais e a otimização da ressonância, podendo igualmente contemplar a modificação de comportamentos de abuso vocal.

Deste modo, a atuação do terapeuta da fala procura minimizar riscos, potenciar a funcionalidade da voz e melhorar a qualidade de vida, capacitando a pessoa para uma relação mais consciente, eficiente e sustentável com a sua voz, seja falada ou cantada, em consonância com as suas necessidades comunicativas, contexto de vida e identidade individual.

Cuidar da voz na comunidade académica

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Assinalando o Dia Mundial da Voz, a ESS/IPS promove um conjunto de ações dirigidas a docentes e não docentes, enquanto utilizadores profissionais da voz. A iniciativa, dinamizada por estudantes do 4.º ano da Licenciatura em Terapia da Fala, com o envolvimento de outros anos do curso, inclui a divulgação de um Reels Educativo com um guião de aquecimento e arrefecimento vocal em oito passos, de aplicação simples no quotidiano.
Será ainda distribuído um kit simbólico de cuidado vocal, com garrafa de água, peça de fruta e panfleto informativo com exercícios e QR Code de acesso para conteúdos digitais. A ação articula-se com a divulgação do programa CapacitaVoz, reforçando o compromisso do IPS com a promoção da saúde vocal e da comunicação no meio académico. 

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